Nas 13 edições em que temos o gabarito definitivo, 16 questões foram anuladas em 1.040 — uma e meia a cada cem. O número é baixo, e o que ele significa para quem faz a prova é menos óbvio.
Recurso contra questão de prova é um gênero literário próprio, e a maior parte dele é esperança. Mas anulação existe, acontece todo exame, e cada questão anulada vale um ponto para todo mundo. Vale a pena saber com que frequência.
O acervo tem 3.460 questões, mas essa não é a base de cálculo certa — e a distinção importa mais do que o resultado.
Anulação só aparece no gabarito definitivo, publicado depois do julgamento dos recursos. O gabarito preliminar sai dias após a prova e ainda não sabe o que vai ser anulado. Das 43 edições do acervo, temos o gabarito definitivo de 13; das outras 30, temos o preliminar. Isso significa que, nessas 30 edições, questões podem ter sido anuladas sem que o acervo saiba — e contá-las como não anuladas seria transformar uma lacuna nossa numa afirmação sobre a banca.
Então a base é: 1.040 questões, nas 13 edições em que sabemos. Dessas, 16 foram anuladas. Um vírgula cinco por cento — cerca de uma questão e meia por prova de 80.
Uma questão anulada é ponto para todo mundo, inclusive para quem deixou em branco. Numa prova em que 40 acertos aprovam, uma anulação move a régua efetiva para 39 questões respondidas corretamente. Duas anulações, para 38.
Isso é uma ajuda real e pequena. Real porque, na faixa de quem fica entre 38 e 42, ela decide aprovações — e é justamente nessa faixa que se concentra a maior parte de quem passa raspando. Pequena porque não é planejável: você não sabe quantas serão nem quais, e nenhuma estratégia de estudo pode contar com isso.
A leitura correta é a de margem, não de estratégia. Quem entra na prova mirando exatos 40 está apostando numa média histórica de uma questão e meia. Quem mira 45 não precisa da aposta.
Olhando quais questões foram anuladas, há uma concentração aparente em Ética e Estatuto da OAB: cinco das dezesseis. Nenhuma outra disciplina passa de duas.
A ressalva vem aqui, e ela é importante o suficiente para vir antes da explicação. A classificação por disciplina do acervo ainda é automática — feita por léxico e por posição na prova, e nenhuma questão foi confirmada por leitura humana. Ou seja: essas cinco podem ser quatro, ou seis. O padrão é grande o bastante para ser interessante e frágil o bastante para não ser conclusão.
Com essa ressalva no lugar, a explicação plausível é aritmética antes de ser jurídica: Ética é a disciplina mais cobrada da prova, com folga. Mais questões, mais chances de uma sair errada. Não é preciso supor que a banca escreve pior em Ética para explicar por que Ética lidera uma lista de dezesseis.
Questão anulada não some daqui. Ela fica, marcada como anulada, e continua acessível como material de estudo — mas fora da fila de treino, porque não tem resposta certa contra a qual medir acerto.
A razão é que uma questão anulada costuma ser a melhor questão da prova para estudar. Ela foi anulada porque tinha duas alternativas defensáveis, ou porque cobrava um ponto em que a doutrina e a jurisprudência divergem, ou porque a redação abriu uma brecha. Qualquer uma dessas é um mapa de onde o tema é escorregadio — e é exatamente onde a próxima prova vai voltar a cobrar, dessa vez com a redação ajustada.
Esconder a questão anulada por ela "não valer ponto" seria jogar fora o dispositivo mais bem sinalizado da prova inteira.
A ficha de cada edição, em /exames, traz quantas questões foram anuladas naquela prova e se o gabarito é preliminar ou definitivo. Essa marcação não é decoração: é a diferença entre "não houve anulação" e "ainda não sabemos", e o site diz qual dos dois é o caso em cada uma das 43 edições.