Contamos as 3.444 questões válidas de 43 provas e separamos por alternativa correta. Existe uma letra que aparece mais — e a conclusão útil é que isso não serve para nada.
Toda véspera de prova reaparece o mesmo conselho de corredor: na dúvida, marque C. Ou B. Depende de quem conta. É uma dessas crenças que ninguém verificou porque verificar dá trabalho — precisa das provas todas, dos gabaritos oficiais e de alguém disposto a contar.
As provas estão aqui. Então contamos.
O acervo tem 3.460 questões objetivas, do 3º ao 46º Exame de Ordem Unificado. Tirando as 16 anuladas, que não têm resposta certa, sobram 3.444 questões com gabarito oficial da banca. Separadas pela alternativa correta:
A alternativa B foi a correta em 909 questões, 26,4% do total. A C, em 880, 25,6%. A D, em 849, 24,7%. E a A, em 806, 23,4%.
Sim, existe uma letra mais frequente. É a B, com 1,4 ponto percentual acima do esperado num sorteio perfeitamente equilibrado. E a menos frequente é a A, com 1,6 ponto abaixo. Em dezesseis anos de prova, num universo de três mil e quatrocentas questões, a distribuição das quatro alternativas se afasta do equilíbrio em menos de dois pontos.
Faça a conta que interessa. Você entra na prova, não sabe nada de nada e marca B nas 80 questões. Pela frequência histórica, acerta 21 delas.
Se marcasse tudo A — a letra "ruim" — acertaria 19.
A diferença entre a melhor e a pior estratégia de chute cego, aplicada às 80 questões, é de duas questões. E a aprovação exige 40. Você precisaria de mais dezenove acertos vindos de outro lugar em qualquer um dos dois cenários, o que significa que a escolha da letra não decide absolutamente nada.
Esse é o ponto do levantamento. Não é que a crença esteja errada por pouco: é que ela está certa por pouco, e "certa por pouco" aqui é indistinguível de irrelevante. A banca não precisa sortear as letras com precisão de laboratório para que a estratégia seja inútil. Basta que a prova exija 50% de acerto, que é o que ela exige.
Onde a variação aparece é dentro de cada edição, e ela é bem maior do que a do conjunto. No 11º Exame, uma das alternativas foi a correta em 26 das 80 questões e outra em apenas 13 — quase o dobro de uma para a outra. No 8º, o mesmo padrão.
Isso é o comportamento normal de um sorteio com 80 tiragens: desvios grandes numa amostra pequena, que se cancelam quando as amostras se acumulam. O que a variação por edição garante é o contrário do que o conselho de corredor promete — a letra frequente da última prova não diz nada sobre a próxima.
Vale registrar o único número do levantamento que chega a ser curioso: a B foi a letra mais frequente em 17 das 43 edições, contra 10 da C e 8 de cada uma das outras duas. Se as quatro fossem sorteadas de forma perfeitamente equilibrada, esperaríamos algo em torno de 11 lideranças para cada. Dezessete é mais do que isso, e pouco o bastante para que 43 edições não permitam separar tendência de acaso — em 26 das 43 provas quem liderou foi outra letra. É uma observação, não um método, e ela não muda nada na conta do parágrafo anterior: continuam sendo duas questões em 80.
Chutar acontece, e não há nada de errado nisso: a prova é longa e o relógio é curto. Só que a economia do chute está em outro lugar.
Numa questão em que você eliminou duas alternativas, o chute vale 50%. Numa em que eliminou uma, vale 33%. Numa em que não eliminou nenhuma, vale 25% — e a letra escolhida não muda esse número de forma perceptível. O ganho está inteiramente na eliminação, e a eliminação vem de reconhecer o instituto no enunciado, não de conhecer a estatística do gabarito.
Traduzido em minutos de estudo: o tempo gasto decidindo qual letra marcar no chute é tempo com retorno praticamente zero. O mesmo tempo gasto lendo um enunciado com atenção suficiente para eliminar uma alternativa vale oito pontos percentuais naquela questão. É uma diferença de ordem de grandeza.
O acervo é público na parte que pode ser: as fichas das 43 edições, com data de aplicação e gabarito oficial, estão em /exames. A contagem deste texto é uma agregação simples das questões válidas por alternativa correta, e qualquer pessoa com os cadernos e os gabaritos da FGV chega ao mesmo resultado — que é, aliás, o único motivo de este texto existir. Crença de corredor não se combate com outra crença.