O enunciado médio da 1ª fase dobrou de tamanho desde 2011, enquanto as alternativas ficaram quase iguais. As cinco horas não mudaram — e é aí que a prova mudou.
Quem faz simulado com prova antiga percebe alguma coisa estranha e costuma atribuir ao nervosismo: as provas de dez anos atrás parecem rápidas. Não parecem mais fáceis, exatamente. Parecem mais rápidas.
Elas eram. E dá para medir quanto.
Medimos duas coisas em cada uma das 3.460 questões do acervo: o comprimento do enunciado e o comprimento das quatro alternativas somadas. Depois tiramos a média por edição, do 3º Exame ao 46º.
O enunciado médio do 4º Exame, em julho de 2011, tinha 299 caracteres. O do 46º, em maio de 2026, tem 607. Dobrou.
As alternativas, no mesmo período, foram de 528 caracteres para 592. Doze por cento em quinze anos, com sobe-e-desce grande de uma edição para outra — o tipo de curva que não tem tendência nenhuma, só ruído.
A subida do enunciado, ao contrário, é monótona e visível a olho nu. Até o 10º Exame, a média orbitava os 330 caracteres. Do 14º ao 21º, os 500. Do 22º em diante, nunca mais desceu dos 560, e desde então oscila em torno dos 600 sem tendência nova — subiu até ali e ficou.
A leitura dessas duas curvas juntas é bem específica. Se as alternativas tivessem crescido junto, a conclusão seria que a prova ficou mais técnica — alternativas longas são alternativas com mais condições, mais exceções, mais pegadinha de redação. Não foi isso que aconteceu.
O que cresceu foi só a parte de cima da questão: a narrativa. A FGV deixou de perguntar "assinale a alternativa correta sobre a prescrição" e passou a contar uma história de dez linhas com nomes próprios, datas, um contrato, uma notificação que chegou numa terça — e só depois perguntar. A questão mais longa do acervo inteiro, no 40º Exame, tem 1.750 caracteres de enunciado. É meia página de texto para uma pergunta.
A habilidade que isso cobra não é a mesma. Ler um caso concreto e identificar qual regra se aplica é uma operação diferente de saber a regra. A segunda você treina lendo; a primeira, só resolvendo questão.
Aqui está o ponto que muda a preparação de alguém.
A prova continua tendo 80 questões e continua durando cinco horas, das 13h às 18h. São três minutos e quarenta e cinco segundos por questão, exatamente como em 2011. Só que dentro desses três minutos e quarenta e cinco segundos hoje cabe o dobro de texto de enunciado.
Ou seja: a prova não passou a exigir mais conhecimento. Passou a exigir a mesma quantidade de conhecimento em menos tempo por questão útil. É um aperto de velocidade de leitura disfarçado de aumento de dificuldade, e as duas coisas se combatem de maneiras completamente diferentes.
Contra dificuldade, estuda-se mais conteúdo. Contra velocidade, treina-se em condição de prova — com relógio, sem consultar nada, e sem ver o gabarito no meio do caminho. Quem só resolve questão avulsa vendo a resposta na hora treina reconhecimento e não treina ritmo, e chega no dia da prova descobrindo que sabia a matéria e não terminou o caderno.
Três consequências práticas, todas medíveis por quem estuda:
Primeira: cronometre. Não a prova inteira, necessariamente, mas blocos. Vinte questões em setenta e cinco minutos é a régua real. Se você estoura, o problema não é conteúdo.
Segunda: leia a pergunta antes do caso. Com enunciados de 600 caracteres, saber o que está sendo perguntado antes de ler a narrativa muda o que você procura nela. Numa questão de 300 caracteres isso era indiferente.
Terceira: desconfie de simulado feito só com prova antiga. As edições até o 13º Exame são ótimo material de conteúdo e péssimo material de ritmo — elas subestimam o tempo de leitura em quase metade.
As 43 edições estão em /exames, com data de aplicação e gabarito oficial. A medição deste texto é o comprimento médio do enunciado e das alternativas por edição, calculado sobre os cadernos oficiais tal como foram extraídos. É uma contagem de caracteres, sem nenhum julgamento sobre o mérito das questões — o que a torna repetível por qualquer pessoa com os mesmos PDFs.